segunda-feira, 2 de setembro de 2013

EUA dizem ter provas de gás sarin na Síria

EUA dizem ter provas de gás sarin na Síria John Kerry afirma que uso da arma química foi comprovado por exames laboratoriais em amostra de sangue e cabelo
Revelação de secretário de Estado é feita um dia após Obama pedir aval do Congresso para uma intervenção militar Após pedir aval do Congresso para realizar uma intervenção militar na Síria em resposta ao suposto ataque com armas químicas ocorrido em Damasco no último dia 21, o governo americano afirmou ontem ter provas laboratoriais de que o regime de Bashar al-Assad utilizou gás sarin contra sua própria população. "Amostras de sangue e cabelo fornecidas pelos socorristas registraram sinais positivos do sarin", anunciou o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, em uma série de entrevistas concedidas ontem a programas de televisão americanos. Numa dessas entrevistas, Kerry comparou Assad a dois outros ditadores, Saddam Hussein e Adolf Hitler, que também violaram a proibição internacional ao uso de armas químicas. O gás sarin, que afeta o sistema nervoso e pode provocar paradas respiratórias ao ser inalado ou entrar em contato com a pele, é considerado uma arma de destruição em massa pelas Nações Unidas. Seu uso já havia sido alvo de suspeita da Casa Branca no caso da guerra civil síria, que se arrasta há mais de dois anos e já deixou cerca de 110 mil vítimas. A nova fala do secretário de Estado tenta reforçar o relatório produzido pela inteligência americana e divulgado no final da semana passada em um esforço para demonstrar transparência e evitar os erros de 2003, quando o governo do ex-presidente George W. Bush invadiu o Iraque sob o argumento de que Saddam possuía armas de destruição em massa, depois não encontradas. Sem oferecer mais detalhes sobre a origem das provas, Kerry informou apenas que elas não são fruto do levantamento dos inspetores das Nações Unidas que deixaram a Síria anteontem, após uma visita em busca de provas do ataque químico. O relatório da equipe da ONU ainda não foi divulgado. Kerry repetiu diversas vezes que tem confiança de que receberá uma resposta positiva dos legisladores. Um dia antes o presidente Barack Obama anunciou que prefere esperar o endosso do Congresso antes da intervenção militar. De acordo com Kerry, o apoio do Congresso à reação militar reforça o recado às ambições nucleares do Irã e da Coreia do Norte --em seu discurso anteontem, Obama já havia sugerido que a inação dos EUA afetaria a credibilidade americana com outros países. Questionado sobre como reagiria diante de uma recusa do plenário, o secretário de Estado respondeu que o presidente tem o direito de agir assim mesmo, "mas sabe que o país se mostrará mais forte se atuar unido". "Se o regime de Assad for insensato a ponto de realizar um novo ataque, é claro que o presidente dos Estados Unidos sabe que tem poder para isso. E eu presumo que ele agiria muito rapidamente." Ao levar o debate ao Congresso, porém, o presidente americano se arrisca a experimentar a derrota sofrida pelo primeiro-ministro britânico David Cameron, cuja proposta de participar da ação militar com os americanos foi derrubada pelo Parlamento na semana passada. Uma eventual resistência republicana pode desafiar os planos do presidente, conforme afirmou o deputado Peter King, também republicano, à rede de TV Fox News. "Se a votação fosse hoje, provavelmente seria um não'", disse. Provas não mudam decisão britânica, diz governo LEANDRO COLON DE LONDRES Apesar das novas evidências do uso de armas químicas na Síria, divulgadas ontem pelos Estados Unidos, o governo britânico sinalizou que descarta pedir nova votação no parlamento sobre uma ação militar no país árabe. O chanceler britânico, William Hague, e o ministro de Finanças, George Osborne, disseram que a posição de não participar de uma intervenção deve ser mantida. Para Osborne, a votação do parlamento na última quinta, contrária a uma ação militar, deve ser definitiva. Em entrevista exclusiva à rede de televisão BBC, ele afirmou que não acredita que o premiê David Cameron reconvocará os congressistas para debater o tema. "O Parlamento já se pronunciou", disse. "Eu entendo o argumento deles, mas não concordo. Eu não sinto, francamente, que mais evidências, relatos da ONU, em uma outra semana, os teriam convencido disso", afirmou. Na mesma linha seguiu o chanceler William Hague, em entrevista à rádio da BBC. "Eu não acho que qualquer assunto com a mesma proposição possa voltar ao Parlamento em poucos dias ou semanas. Nossa proposta já incluía a espera dos inspetores da ONU", disse, em referência à equipe que investiga o uso de armas químicas na Síria e ainda deve divulgar seu relatório. Na última quinta-feira, o Parlamento britânico rejeitou uma proposta do primeiro-ministro conservador David Cameron que abriria caminho para o Reino Unido participar de uma ação militar na Síria. O texto foi derrubado por 285 votos a 272, na maior derrota do premiê desde que tomou posse, em 2010. Cameron, que saiu politicamente humilhado da votação, disse aceitar o resultado e prometeu não usar a chamada prerrogativa real, que permitiria uma ação sem o aval dos parlamentares. "Ficou claro para mim que o Parlamento, refletindo as visões da população, não quer ver uma ação militar britânica", afirmou. Falta de unidade ocidental confere sobrevida a ditador ROULA KHALAF Bashar al-Assad, o ditador sírio acusado de usar armas químicas em um subúrbio de Damasco, deve ter se sentido orgulhoso no sábado. No lugar de mísseis atingindo suas bases militares, foi oferecido a ele um atraso, talvez uma suspensão permanente, após o presidente Barack Obama levar a decisão de bombardear o país para aprovação do Congresso. Enquanto Assad respirava aliviado, seus oponentes espumavam: "É decepcionante as democracias protegerem ditadores como Assad", disse Radwan Ziadeh, ativista sírio da oposição. Há mérito em jogar para os parlamentares o peso de uma ação controversa. Mas a decisão de Obama (esperava-se o início dos bombardeios no final de semana) será interpretada em Damasco como fraqueza do Ocidente. A aposta de Obama não tem garantia de referendo dos congressistas, que retornam ao trabalho no dia 9. Assad pode emergir como beneficiado da democracia e do cansaço ocidentais com as guerras do Oriente Médio. A mudança de Obama (autoridades não viam necessidade de aprovação do Congresso) expôs o desarranjo internacional em relação à Síria, situação de que Assad repetidas vezes se aproveitou. Desde o surgimento da crise síria em 2011, o ditador se aproveitou da proximidade com a Rússia e com o Irã, aliados que não se incomodam com questões como legalidade e opinião pública. A hesitação dos governos ocidentais (e árabes) ficou evidente na semana passada com a busca dos EUA por apoio a uma coalizão militar. Primeiro, veio o voto do Parlamento britânico contra a intervenção. A Alemanha e a Itália deixaram claro que não participariam. Só a França e a Turquia expressaram disposição de se juntar. Tanto opositores quanto apoiadores criticaram. Os favoráveis disseram que o plano americano não era ambicioso. Os opositores temem que o país entre em uma guerra no Oriente Médio, como a do Iraque, em 2003. Assad deve ter assistido ao debate com satisfação. Foi menos sobre uma guerra civil na Síria e a brutalidade de seu regime e mais sobre questões diplomáticas e políticas. Autoridades sírias temem que Assad saia fortalecido, enquanto os governos ocidentais se ocupam dos efeitos colaterais da crise. Finalmente, Assad ganhou mais tempo para equipar suas tropas e se preparar, tanto militarmente como com propaganda, para o que chama de agressão americana. Assad se diz pronto para reagir a 'agressão' Com apoio do Irã, ditador sírio afirma que combaterá ameaça estrangeira assim como faz com 'terrorismo' no país Cúpula da Liga Árabe no Cairo tem pedidos de apoio aos rebeldes; estimativa de mortos no conflito chega a 110 mil O ditador Sírio, Bashar al-Assad, afirmou ontem que seu país "é capaz de fazer frente a qualquer agressão estrangeira, assim como tem feito com a agressão interna". Em declaração à TV estatal, Assad disse ainda que as "ameaças dos EUA" não farão Damasco abandonar "seus princípios e sua luta contra o terrorismo [em referência aos rebeldes que combatem seu regime]". Antes de se pronunciar sobre a decisão do presidente dos EUA, Barack Obama, de pedir aval do Congresso americano para atacar a Síria, Assad se reuniu com o iraniano Alaedin Boruyerdi, que preside a Comissão de Segurança Nacional e Política exterior do Parlamento persa. Boruyerdi afirmou que, em caso de intervenção estrangeira no conflito sírio, "os grandes perdedores serão os Estados Unidos e seus agentes na região, sobretudo a entidade sionista [em referência a Israel]". O iraniano disse que Teerã "não admitirá complôs estrangeiros contra a resistência síria [à tentativa de derrubada do regime de Assad]". Em reforço às declarações de Assad, o premiê sírio, Wael Nader al-Halqi, afirmou que o Exército do país está em "máxima prontidão e com os dedos no gatilho para fazer frente a todos os desafios". O vice-ministro de Relações Exteriores, Faysal Moqdad, afirmou que Obama "parecia confuso e indeciso" quando anunciou que buscaria apoio do Congresso para lançar o ataque. Um porta-voz do oposicionista Exército Livre da Síria, por sua vez, disse à agência Efe que o grupo planeja uma ofensiva contra o regime, "coincidindo" com eventual ataque americano. "Demos ordens a todas as brigadas de combatentes para que se preparem e aproveitem essa oportunidade", disse Qasem Saadedin. Já o líder da Coalizão Nacional Síria, Ahmed Yarba, conclamou os países árabes a apoiar uma "intervenção militar contra a máquina de assassinatos e destruição" do regime sírio, durante cúpula da Liga Árabe, no Cairo. Também na cúpula, o chanceler saudita, Saud al Faisal, pediu respaldo aos rebeldes sírios. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede em Londres, divulgou ontem a cifra de cerca de 110 mil mortos desde o início do conflito sírio, em março de 2011. As informações sobre as mortes são reunidas, segundo o Observatório, por uma rede de colaboradores internos. Segundo o levantamento, a maioria das mortes foi entre membros das forças de segurança e milícias pró-regime (45,4 mil). Houve 21,8 mil baixas entre combatentes rebeldes e 40,1 mil entre civis. Papa convoca vigília pela paz na Síria Dia de jejum e de oração acontecerá no mundo todo no próximo sábado (7/9), das 19h às 24h (14h às 21h no horário de Brasília) e foi anunciado durante a oração do Angelus. Francisco chamou todos os cristãos e também pessoas de outras religiões, inclusive os não crentes, a participar do ato.

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